PAI - guia de sobrevivência

Por Catarina Fonseca, in Activa,nº 160 - Março 2004

Ao homens de hoje á pedido, além de serem giros, altos, bem-tratados, educados, excelentes maridos, profissionais irrepreensíveis e mestres de cozinha, que sejam ainda pais dedicados. É posssível? Sim, é possível. É tudo questão de treino.

Assumir o direito às fraldas - Durante séculos, os pais homens foram relegados para um papel secundário, um pouco como o príncipe do "Lago dos Cisnes" que só tem de ter braços fortes para levantar a bailarina e pouco mais. Aos pais de hoje é pedido que assumam o seu papel principal ao lado da mãe. E um pai não 'ajuda', porque isso implica um papel secundário. O pai partilha a paternidade.

Ser activo - No primeiro ano, a relação privilegiada do bebé é com a mãe, mas o pai pode estar presente de várias maneiras: tanto pode pegar no bebé ao colo enquanto a mãe faz o jantar ou dorme a sesta como aspirar a casa e ir às compras para que a mãe esteja mais livre.

Não aceitar ser posto de lado - A ideia de que um homem não 'tem jeito' para bebés faz tanto sentido como dizer que um homem não tem jeito para cães ou para laranjas ou para golfe. Toda a gente tem jeito para tudo, basta aprender, e nem as mães nascem ensinadas. Aliás, como as raparigas têm elas próprias cada vez menos contacto com crianças, cada vez mais o recém-pai e a recém-mãe têm de aprender tudo ao mesmo tempo.

Treinar - Se é possível treinar a arte do squash, também é possível treinar a arte de mudar uma fralda particularmente perfumada, enfiar uma colher de papa numa boca ambulante ou acalmar um bebé que insiste em gritar em vez de estar sentadinho a ver o telejornal. Muitos homens não sabem o que fazer com um bebé, mas dar-lhe colo, ouvir música, falar com ele e ler-lhe alto já são bastante actividades para quem ainda não anda. Ler?, perguntam os pais. Ler a um bebé que ainda nem sequer percebe 'olha a papa', quanto mais Camões? Pois, nesta altura, ainda não interessa. Pode ler-lhe Camões ou o folheto de instruções da máquina de lavar, o que é importante é que aprenda a reconhecer a voz do pai.

Não querer ser igual à mãe - Se o bebé estiver a chorar, a maioria dos pais devolve-o apressadamente à mãe, sem tentar descobrir por ele próprio como pode parar o choro, porque aquele choro o faz parecer incompetente e os homens odeiam tudo o que os faça parecer incompetentes. A maioria das mães, quando houve o bebé chorar, também corre imediatamente para o resgatar das garras do malvado. Mas também se aprende a ser pai, e ninguém aprende sem prática.

Aproveitar todos os momentos - Se vai buscar o bebé ao infantário, em vez de aproveitar a fila de trânsito de regresso a casa para insultar o vizinho da direita, inspeccionar o carro da esquerda que é maior do que o seu, meditar longamente no seu dia de trabalho ou mais ou menos adormecer, porque não aproveita para pôr uma cassete e cantar com o bebé? Ele ainda nem fala, coitadinho? Não fala mas ouve. Mesmo que não tencione concorrer à próxima sessão dos 'Ídolos', cantar para o seu bebé é sempre uma boa ideia.

E QUANDO ELES CRESCEM?

Estar mesmo presente - O facto de estarem na mesma sala com os filhos não quer dizer que façam verdadeiramente parte da vida dele. À medida que as crianças crescem, os pais tendem a afastar-se gradualmente por acharem que já não são precisos. um erro. Os filhos precisam cada vez mais dos pais, só que vão precisando de formas diferentes, e cabe aos pais irem ajustando esse equilíbrio entre apoiar e deixar à solta. Os filhos mais crescidos continuam a precisar de um pai que vá de vez em quando falar com a directora de turma em vez de ir sempre a mãe, que não diga coisas como 'isso é de menina' quando os rapazes lêem uma histórias de princesas. Pelo menos uma vez por semana, façam qualquer coisa juntos. jogar xadrez, jogar playstation, comer juntos sempre que poderem, e aproveitem a refeição para conversar.

Defender os seus direitos - A sociedade acha amoroso um homem se que passeia com o filho no parque, para quando se passa da cena idílica para a realidade, quem queira assumir em pleno as funções da paternidade vai encontrar obstáculos. Sair mais cedo para levar os filhos ao médico ou faltar a uma reunião porque a criança está doente são sempre vistos como funções da mãe, e só perdoados a um pai se for um 'pai solteiro'. E, mesmo assim, continuam a achar que se está a usar a criança como desculpa para ir para casa ver os campeonatos de snooker acrobático na SporTV.

Cuidado com os papéis demasiado definidos - Se a mãe fica todas as noites na cozinha à espera que as almôndegas fritem enquanto o pai joga Nintendo ou corre com eles à volta da sala, a coisa vai rebentar nem que seja quando ele tiver 16 anos e o pai começar a ouvir que a mãe sempre foi uma sacrificada.

Dar o exemplo do optimismo - Se um pai só serve para perguntar se já fez os trabalhos,  então não se progrediu nada desde os nossos avós. Se um pai chega a casa e está sempre maldisposto porque o chefe é um coração de pedra e o Iraque está cada vez pior, como é que depois podemos exigir às crianças que sejam alegres, bem dispostas e dedicadas?

Escolher as suas guerras - Valerá mesmo a pena zangar-se porque ele deixou os livros na mesa da sala em vez de os levar para o quarto? Escolha aquilo que é realmente importante para si, ou então arrisca-se a transformar a vida deles (e a sua) numa constante reedição do 'Senhor dos Anéis' (quer dizer, cenas de pancada entre orcs e elfos). Claro que, geralmente, são as mães quem mais stressa com os bocados de puzzles de variados tamanhos e feitios aparecendo e desaparecendo como se tivessem vida própria, mas muitos homens também se sentem incomodados com esta interrupção do anterior paraíso. Enfim, lembre-se que as crianças são mais importantes que uma casa impecável. aproveite enquanto pode, que ainda vai ter saudades.

Não ter medo de ser carinhoso - Ouve-se muito actualmente 'ai, eles são tão mimados'... mas uma coisa é dar mimo e colo e beijos, que nunca fizeram mal nenhum a ninguém, antes pelo contrário, outra coisa é entupi-los de brinquedos ou aceitarem que façam tudo o que querem. Muitas crianças têm toneladas de Barbies, mas recebem poucos beijos dos pais. E muitos homens ainda têm pudor em beijar e abraçar os filhos, especialmente os rapazes. Por amor de Deus. Há mais gente 'estragada'  por colo a menos do que por colo a mais.

Amar a mãe - Estudos recente têm mostrado mostrado aquilo que toda a gente  já sabia mesmo sem estudos nenhuns: que a satisfação dos homens em relação ao casamento influencia a forma como se relacionam com as crianças. Homens que não são felizes no casamento tendem a afastar-se da mulher, e, consequentemente, dos filhos, vistos como extensão da mãe. Mas mesmo no caso de pais divorciados, podem ser continuar presentes: a um pai desculpa-se tudo menos que desapareça da vida dos seus filhos, Como camisola que deixa de servir e se arruma no fundo do armário.

Concentrar-se nas alegrias - Qualquer pai presente saberá do que se fala quando se fala em orgulho nos seus filhos (é por isso que é tão importante ir às festas da escola, onde eles estão no seu melhor e mais engraçadinhos), na flexibilidade de pensamento (birra em pleno hipermercado? "Eh... Olha, anda cá, vamos ali ao corredor  das... eh... latas de comida para cão?"), em paciência ("Agora esta colher é para o teu amigo Carlinhos..."), no sentido de humor ("Que é que estás a desenhar? Um burro' Não? É o quê? Ah. O pai com o cabelo em pé."), no reordenamento de prioridades (que é que interessa se a promoção foi para o seu colega do lado se ele não tem um filho giro e engraçado), na falta de egoísmo (há muita gente que só descobre extraordinários dons de altruísmo quando se torna pai ou mãe), em criatividade ("Vamos fazer una recortes e pôr a cara da Gisele Bundchen no corpo da... ah... esta girafa aqui"), em repensar quase tudo na vida (explicar-lhes porque é que votou no senhor careca em vez do senhor de óculos ou porque é que o príncipe da Rapunzel teve de trepar pelo cabelo dela em vez de ir de elevador como toda a gente) e muito, muito, mais.

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