e s p e c i a l   p a i s           
"Longe da sala de aula"                                   

in revista Xis - Público - 19-03-2005, por Daniel Sampaio

Em muitas escolas, ensina-se como no meu tempo. Os professores não "estudam" o programam nem procuram "lê-lo" de forma criativa. Dão as aulas pelo Livro do Professor, sem olhar para as diferenças dos alunos ou para a comunidade que rodeia a escola.
Já viram com atenção as bibliotecas e "centros de recursos" das nossas escolas básicas e secundárias? Com honrosas excepções, são locais estranhos: parecem "outra escola". Nalguns estabelecimentos de ensino, as salas de aula continuam como há trinta anos. Carteiras alinhadas em plateia, "decoradas" com nomes de alunos ou expressões obscenas. O velho quadro preto, onde os professores cansados continuam a escrever fragmentos de matéria. Chão de tacos carcomidos pelo tempo pelo tempo, sem brilho nem limpeza. Ao fundo da sala, cabides alinhados em suportes envelhecidos, deixaram de servir para as samarras de há quarenta nos, mas esperam em vão os kispos de agora: está frio e os alunos não os despem.

Em muitas escolas, ensina-se como no meu tempo. os professores não "estudam" o programa nem procuram "lê-lo" de formas criativa. Dão as aulas pelo Livro do Professor, sem olhar para as diferenças dos alunos ou para a comunidade que rodeia a escola. A avaliação reduz-se a dois testes por período e, como respondia um jovem de doze anos, "oh mãe, já não se usa pedir ao s'tor para fazer chamadas". As aulas são organizadas a partir da exposição do professor, têm muito pouco suporte audiovisual e escasso trabalho de pesquisa. Muitos alunos do Secundário não sabem utilizar o dicionário, nem recolher bibliografia ou estruturar um trabalho escrito. Não se promove a leitura nem a escrita e mesmo os bons alunos redigem com muitos erros. As reformas mais recentes, delineadas por "cientistas da educação" que não visitam a escola há anos, introduzem mudanças pontuais que deixam tudo na mesma.

longe, simbolicamente longe da sala de aula, há outra escola. Livros bem arrumados em prateleiras, CD e vídeo, jornais, alguns computadores. o problema é que não existe qualquer ligação entre os dois mundos: os alunos vão até à biblioteca ou consultam a Internet quando têm tempo ou falta um professor, não porque haja relação entre o que ouviram na sala de aula e o seu interesse actual no Centro de Recursos. É como se existissem duas escolas separadas: a da aula de 90 minutos, abstracta, sem sentido, polarizada no método expositivo do professor, onde não se pode pesquisar, contestar, falar para o lado; e a da Internet, com o seu mundo de pesquisa sem fim, onde os mais novos se perdem e os mais velhos se embriagam, mal apoiados por professores deprimidos, a gastarem as suas "horas de redução da componente lectiva" numa actividade que não pediram.

Muitas escolas possuem bons Centros de Recursos e razoáveis bibliotecas. Mas quantas inovaram o seu modo de ensinar? Quantas foram capazes de pôr ao serviço da sala de aula as novas tecnologias que existem ali ao lado? Em que medida é que os professores da Informática para além de darem "aulas de Internet" foram capazes de introduzir a Rede na dinâmica do próprio  ensino, articulando-a com os currículos existentes?

A maior participação dos alunos no seu processo de aprendizagem não tem como consequência a diminuição da autoridade do professor. É de uma interacção permanente entre docentes e discentes que se pode construir uma relação que respeite a hierarquia mas que, ao mesmo, permita a descoberta que falta nas nossas escolas.

 Esperemos que a próxima Ministra da Educação ouse romper com a velha escola e proporcione uma integração permanente entre a sala de aula e o moderno Centro de Recursos. podem acreditar que era um crucial choque tecnológico...

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