e s p e c i a l   p a i s           
"De onde vêm os bebés?"                                   

Apesar de o debate sobre a educação sexual estar centrado no espaço da escola, a formação da sexualidade começa em casa. com a família, desde o nascimento, mesmo antes da criança arremessar a pergunta "de onde vêm os bébés".

Texto Ana Gomes , in revista XIS - Público

Parece que foi ainda ontem que começaram a balbuciar as primeiras palavras, quando surge a pergunta fatal: " de onde vêm os bebés?. Porque a sexualidade ainda é terreno minado por tabus, pudores e silêncios, nem sempre é com naturalidade e facilidade que os pais respondem à questão. Esquivam-se, riem contam histórias inacreditáveis de cegonhas ou explicam, tintim por tintim, o processo científico com palavras que a criança não consegue sequer repetir, quanto mais entender.

A verdade é que a educação sexual, cada vez mais reconhecida como uma absoluta necessidade para a saúde das sociedades, começa em casa, com a família. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a sexualidade é, "uma energia que nos motiva a procurar amor, contacto, ternura e intimidade; que se integra no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, (...) influencia pensamentos, sentimentos, acções e interacções e, por isso, influencia também a nossa vida física e mental."

Para além do sexo. Assim sendo, a sexualidade é uma questão transversal e omnipresente na vida dos indivíduos desde o nascimento. Não se reduz à aquisição de conhecimentos e competências mas transborda para a vida. molda a identidade, personalidade, comportamento, formas de relacionamento consigo próprio e com os outros ou mesmo maneiras de ler o mundo - como é o caso da adopção de uma postura consciente de partilha de responsabilidades e igualdade entre géneros.

Sobre as famílias recai, desde logo, a necessidade de compreender esta omnipresença da sexualidade e a importância de estar disponível para construir as bases da educação sexual. Esta formação, de carácter informal ganha vida no quotidiano de relacionamento entre pais e filhos. A cada palavra, repreensão ou esforço positivo vindo dos pais, modelos comportamentais e figuras de identificação, a criança constrói a sua personalidade e lança os pilares da sua identidade sexual, compreensão e vivência da sexualidade. O facto de um filho ser também espectador da relação de casal dos pais, os primeiros contactos com meninos e meninas da mesma faixa etária e a percepção da diferença de género, para além da informação - muitas vezes confusa e contraditória - veiculada pela televisão, cinema, publicidade, são ainda elementos a ter em conta na educação sexual no espaço familiar.

O gesto é tudo. "As primeiras perguntas surgem pela primeira vez por volta dos três ou quatro anos, fase do desenvolvimento da curiosidade sexual. Os pais devem responder às dúvidas que lhes colocam e manifestar a sua disponibilidade para o diálogo. A resposta  deve ser o mais correcta possível, mas sem excesso de realismo e detalhes que uma criança desta idade não compreende e só geram confusão", defende Paula Vilariça, pedopsiquiatra do  Hospital D. Estefânia. A criança deve ler a honestidade e naturalidade com que os pais recebem dúvidas que abrem portas à percepção da sexualidade como algo positivo na condição humana e nas relações que estabelecemos. "Eles nunca acreditam na história da cegonha, mas se a versão for a do pai que coloca uma semente na barriga da mãe", as crianças conseguem entender o processo sem serem ludibriadas ou expostas a explicações confusas e pertubadoras.

Permissividade e repressão. As sociedades, apesar de cada vez mais conscientes da importância da educação sexual, enfrentam o desafio de encontrar um  um ponto de equilíbrio entre o paradigma da repressão e o da permissividade. "As crianças devem ser respeitadas no desenvolvimento da sua sexualidade. Nestas idades, os pais não devem estimular nem interditar. A sua postura deve ser não intrusiva, mas de acompanhamento e apoio, sem esquecer ainda o ensino das normas sociais", adianta a pedopsiquiatra.

Desde as perguntas aos primeiros jogos exploratórios de "brincar aos médicos", os pais devem mostrar-se receptivos à comunicação, respeitadores da intimidade do filho que começa a descoberta da sua sexualidade e exigentes no respeito da sua própria intimidade. " É importante que haja uma separação dos espaços e definição da intimidade e privacidade a adequada à idade da criança", esclareçe Paula Vilariça.

Etapas de desenvolvimento. Até aos seis anos a criança joga no domínio da curiosidade e na percepção das diferenças anatómicas entre sexos e na definição dos papeis de género. Trata-se ainda de uma etapa marcada pela aceitação ou imitação de comportamentos dos exemplos adultos, os pais. Depois surge a chamada fase da latência, em que existe uma diminuição do interesse da criança na sexualidade e a aposta noutras áreas. "Aqui, entre os seis e os dez anos, , a criança já não quer perguntar de onde vêm os bebés, mas sim de onde vem a Terra, ou porque é que o céu é azul", explica a Paula Vilariça.

Finalmente, a fase da adolescência, momento de "revolução" psicossexual. "É muito importante que nesta fase os pais estejam atentos e que tomem a iniciativa de puxar conversa sobre temas da sexualidade, de forma que os jovens entendam as alterações do corpo, percebam que as manifestações da sexualidade são normais e que cada um evolui a seu ritmo", a firma a especialista. Mas as bases são lançadas desde o primeiro minuto, muito antes do desafio de dar resposta à primeira pergunta: "de onde vêm os bebés?".

 

Aprender a sexualidade

Para além da educação sexual no espaço da família, é essencial a que acontece na escola, integrada nos programas curriculares, de forma transversal às diversas disciplinas ou alvo de disciplina própria. Estas duas formas educativas são complementares e não se excluem uma à outra. Pais e escola são agentes educativos e partilham responsabilidades na formação da criança. Na escola, e frente a jovens adolescentes, o objectivo da educação sexual passa por promover uma sexualidade gratificante e responsável. Para além das questões reprodutivas, da anatomia e fisiologia, devem ser abordados temas como métodos contraceptivos e planeamento familiar, doenças sexualmente transmissíveis, valorização das diferentes expressões da sexualidade, entendimento do prazer e da afectividade, respeito pelas diferenças, etc. Para a construção de uma sexualidade informada, responsável e recompensadora.

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