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Valorizar a Criatividade

                                                                                                                                                                             Maria José Costa Félix, Revista XIS, Junho 2004

Não basta ter ideias para ser criativo. É preciso aplicá-las. Encontrar novas soluções para antigos problemas. Antecipar respostas respostas a perguntas não formuladas. Fazer nascer algo que ainda não existia ou reformulá-lo... Dada a velocidade com que hoje em dia tudo muda em todos os campos, cada vez é mais evidente que, sem criatividade, não conseguimos acompanhar o evoluir do mundo em que vivemos.

Segundo o professor Rogério Mussak, as razões para essa importância crescente são uma competitividade cada vez maior, a grande velocidade das transformações e a forma como actualmente se valoriza o espírito empreendedor. " O aumento da concorrência - que resulta da globalização - e a evolução das competências das pessoas e das organizações fazem com que o nosso tempo seja muito marcado por uma grande competitividade."

Quanto mais competência houver, maior é a competitividade. Hoje em dia, porém, para lá da necessidade de ser competente, há que ser flexível. Criativo. capaz de usar as próprias asas e de ampliar os nossos limites. Mussak usa o termo "metacompetente".

Todos somos criativos. Duas características da infância e da juventude estão profundamente ligadas à questão da criatividade: a curiosidade e a transgressão. E todos nascemos curiosos - com o desejo de entender o mundo -, assim como transgressores - a querer mudar o que está à nossa volta, construir alguma coisa por nós. Todos somos, por isso, naturalmente criativos. Capazes de criar. O que acontece é que nem sempre nos deixam usar ou desenvolver essas nossas duas qualidades inatas - que, assim, vão ficando adormecidas pelo tempo.

São as pessoas criativas que abrem caminho para que o mundo vá avançando. Mas, ao gerarem novos caminhos, subvertem a ordem estabelecida. E incomodam. Por vezes são incompreendidas, criticadas ou até perseguidas.

Daí que desde pequenos nos ensinem a não assumir a diferença. A bloquear a nossa criatividade. A ficar quietos e não fazer perguntas. A não sermos irreverentes. Conformados, a prendemos a não tentar mudar nada. A achar que não podemos mesmo mudar este mundo para melhor. A cortar as nossas próprias asas.

Ao longo da nossa vida, vamos construindo um forte sistema de autocensura. " É durante a educação, principalmente na infância, que a criatividade potencial é libertada ou, pelo contrário, pode ficar aprisionada para sempre, permitindo, quando muito, pequenos espasmos criativos", afirma Rogério Mussak.

Liberdade de pensamento. Criatividade é liberdade de pensamento. E nós temos a chave que nos permite libertar das algemas mentais que nos amarram. Mas só através de todo um longo processo de consciencialização, podemos sabê-lo. Um mergulho paciente e ousado nas três partes do nosso aparelho psíquico, cada uma delas regida por uma determinada característica: o id pelo prazer, o superego pela proibição e o ego pela realidade.

Mussak equipara este processo a uma espécie de brainstorming individual, em que o ego ( a parte da nossa mente ligada à realidade) promove um clima interno que leva a criatividade inconsciente do id ( a nossa mente sonhadora, regida pelo prazer) a libertar-se das amarras do superego (o nosso lado crítico, regido pela proibição).

E cita Walt Disney, um dos homens que mais ajudaram a mudar o mundo no século XX. Dizia ele que sempre encarava cada projecto através das três partes das duas pessoas, dando total liberdade a cada uma conforme os momentos. E tinha até três gabinetes de trabalho, assumindo em cada um deles comportamentos e posturas físicas diferentes.

Os três Disneys - O Disney sonhador era espontâneo e tinha toda a liberdade de fantasiar. O Disney crítico perfeccionista, importava-se com a qualidade e, em geral, era contrário às ideias do sonhador. O Disney realista, organizado, metódico, analítico, atendia aos recursos e limitações existentes e dava forma às fantasias, viabilizando a realização do projecto.  A seguir, o realista devolvia-o ao sonhador, para ele verificar se não fora deturpado para, por sua vez, o passar novamente ao crítico e, por fim, ao realista, que voltava a avaliá-lo. "Esse ciclo repetia-se até que os três Disneys ficassem satisfeitos", diz Mussak. E sugere: "Qualquer de nós pode usar o mesmo processo criativo."

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