e s p e c i a l   p a i s           
"Explicar o divórcio às crianças"                                   

in revista Xis - Público - 12-03-2005, por Ana Gomes

 

Um divórcio é sempre um processo doloroso para s filhos. Mesmo quando acaba por ser a melhor solução para toda a família. Explicar a separação às crianças pode não ser tarefa fácil mas é indispensável.

 

A separação de um casal é sempre um processo complicado graças às alterações no quotidiano de vida que acarreta para toda a família. Mesmo quando a mudança é para melhor. Tanto mais quando existem filhos no meio, perdidos entre inseguranças, receios e falsas culpas. O divórcio implica todo um período de transição que pode levar meses ou anos, mas no entretanto existe a hora H, aquela em que os pais comunicam a sua decisão aos filhos. Este é um momento essencial para que a separação decorra da melhor forma possível. A sua importância, simbólica e prática, é a de um ponto de partida para a mudança, que deve ter sempre em vista o bem-estar das crianças.

Abertura ao diálogo. Antes de mais, há que promover uma postura da verdade. Depois de tomada a decisão da separação, não vale a pena deixar arrastar a conversa obrigatória com os filhos. O pior é deixá-los perceber que algo se passa sem se prontificarem desde logo para falar, esclarecer e dissipar dúvidas. O subentendido é um terreno minado que só potencia sentimentos de insegurança e medo dos filhos, que não compreendem exactamente o que está a acontecer.

A criança deve ficar a par da nova situação o mais cedo possível e sempre em conversa com o pai e a mãe, juntos, e nunca por intermédio de terceiros. Mesmo com crianças mais pequenas é importante verbalizar a situação, nem que seja através de uma história que ilustre de forma mais realista possível o que se vai passar. Chegada a altura da comunicação, a verdade é a melhor conselheira, desde que não seja pretexto para acentuar o sofrimento inevitável das crianças perante o anúncio do divórcio. Há que ter sempre em atenção a capacidade de compreensão do interlocutor consoante a idade e não esquecer que a criança deve ser poupada a pormenores detalhados da separação que só contribuem para aumentar sentimentos negativos.

Urge encontrar um equilíbrio entre a crueza de certas verdades e o esforço contraproducente de criar a ilusão de que nada vai mudar. Honestidade e serenidade são a pauta do discurso. Mesmo quando a relação do casal já comportava alguma agressividade, expressa periodicamente em momentos de discussões abertas, esta conversa dever ser calma e serena. Explicado o porquê, os pais, por muito que lhes custe ver os filhos sofrer, devem abrir um espaço para que as crianças manifestem os seus sentimentos. É importante deixá-los chorar ou mesmo expressar de forma livre todas as emoções negativas que geralmente marcam a reacção do divórcio: raiva, insegurança, dor.

Proteger a criança. É ainda aconselhável que o anúncio não assuma a forma de um comunicado unilateral. Se é verdade que os filhos não podem alterar a decisão tomada pelos pais, isto não implica que as crianças sejam votadas à resposta do silêncio. No caso dos filhos não reagirem verbalmente, numa altura em que um turbilhão se instalou nas suas cabeças, cabe aos pais perceberem se os devem deixar reflectir um pouco e organizar as ideias ou, pelo contrário, motivá-los a expor as suas dúvidas.

O medo e a culpa são os principais inimigos das crianças no processo de divórcio. O medo de perder o amor dos pais e o sentimento de serem culpados da separação são emoções vulgares que urge desconstruir. Se seria uma hipocrisia insistir no discurso de que nada vai mudar, é essencial que a criança entenda que o amor que o pai e a mãe lhe dedicam não vai sofrer alterações. Que perceba que o divórcio é entre o casal e nunca entre os pais e os filhos. Esta é a garantia mais essencial para que o divórcio não faça nascer emoções de insegurança, frustração, ansiedade ou raiva na criança. Também os sentimentos de culpa em que os filhos têm tendência a cair devem ser arredados ao longo desta conversa. Os pais devem explicar que a separação não teve nada a ver com eles e marcar bem a fronteira entre o que á a relação de casal e as de maternidade e paternidade, que se mantêm incólumes.

Fugir aos conflitos. Mesmo nos casos de divórcios litigiosos ou conflituosos, os pais devem fazer um esforço para que esta hostilidade não tenha os filhos por espectadores. Decidir a logística da nova situação familiar - custódia, visitas, apoio financeiro, etc. - não pode ser pretexto para mais discussões. pelo contrário, deve ser apresentado o novo modelo de quotidiano familiar como um esforço sereno para que a criança sinta alguma segurança e confiança. Deve ser oferecido à criança um plano de acção marcado pela estabilidade, para minorar o seu sofrimento.

São ainda de evitar comportamentos que resgatem os filhos para o processo de divórcio, como ter discussões à frente deles ou usá-los como arma de arremesso nas zangas. Para marcar bem a distinção entre o que se passa na vida de casal e o que acontece entre pais e filhos, não se pode criticar a outra figura parental frente à criança, utilizá-la como tema de discussão entre pai e mãe ou recorrer a comparações do género "a mãe gosta mais de ti do que o pai que se foi embora". O respeito entre os ex-cônjuges é essencial para a manutenção do bem-estar dos filhos.

As crianças devem ainda ser esclarecidas que o processo de divórcio é permanente, de forma a não alimentarem a fantasia de uma reconciliação. Os pais devem ainda reforçar que o facto de serem filhos de pais separados não é motivo de vergonha ou embaraços e que estão sempre disponíveis a apoiar os filhos a superarem as dificuldades inerentes à adaptação a uma nova situação familiar.

 

Precauções do casal

Pequenas atitudes podem fazer toda a diferença em processos de divórcio no que respeita a minorar o sofrimento dos filhos. Seguem-se algumas sugestões:

- Informar os filhos com algum tempo de antecedência antes de um dos cônjuges sair de casa, para que possam ter algum tempo para se habituar à ideia e preparar-se para a mudança.

- Informar os filhos que têm um espaço à disposição na casa do cônjuge que sair. reforçar o lado positivo de passar a ter duas casas para morar através de pequenos gestos, como deixar a criança participar na decoração do novo quarto.

- Manter regras semelhantes nas duas casas onde a criança passa o seu tempo para não aumentar a confusão ou abrir espaço à manipulação dos filhos.

- Envolver a família alargada no processo de separação no que toca à dispensa de atenção, tempo e carinho às crianças para que estas sintam que têm diversos pontos de apoio aos quais podem recorrer.

- Tentar manter ao máximo as rotinas dos filhos para que o sentimento de receio pela mudança não seja mais acentuado.

- Informar a escola e outros locais de ocupação de tempos livres da criança do processo de divórcio para que estejam atentos a qualquer alteração de comportamento.

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