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Escrever - prazer ou necessidade?

                                                                                                                                                        Rita Lancastre in Revista xis - Julho 2004

Diários, cadernos, blocos de notas, folhas avulsas, livros em branco... universos misteriosos de pessoas que se escondem ou se revelam através da escrita.
Geralmente, a necessidade de escrever nasce na adolescência, período em que nos sentimos facilmente incompreendidos ou desfasados do resto do mundo. Nesta fase de maiores dúvidas e de grandes sonhos começam os diários, os bilhetes para os amigos, as cartas, os sms, os e-mails, os blogs... Uma infinidade de possibilidades em que tudo serve para desabafarmos, para abrirmos o coração, para nos aproximarmos dos outros ou, simplesmente, para despejarmos o que nos vai na alma. Cadernos imaculadamente limpos tornam-se, assim, os nossos primeiros confidentes, e neles depositamos também a certeza que um dia compreenderemos as instabilidades e desgostos das gerações vindouras. Diários que revelam segredos, dramas, frustrações, mas também os primeiros amores e todas as juras de amizade eterna.

A certeza. É nesse tempo quase sagrado, de grande intimidade connosco e com alguns amigos, que aprendemos a conhecermo-nos, a inquietarmo-nos e a questionarmo-nos. E são estes cadernos (ou, na versão actual, documentos guardados no computador) que contêm algumas das questões mais essenciais e muitas dúvidas existenciais que muitos não ousam fazer de viva voz. E, para estes, é precisamente no decorrer destas primeiras experiências que nasce o gosto pela escrita, que se irá ou não manter durante toda uma vida. É aqui que se sedimenta esta paixão quase inexplicável.

Da leitura à escrita. O prazer da escrita pode também do hábito e do gosto pela leitura. diz-nos Jean Paul Sartre, na sua obra "Les Mots", que a leitura antecede sempre  escrita. Porque, na realidade, à força de tanto lermos surge inevitavelmente em nós a tentativa ou o desejo de fazermos qualquer coisa parecida. De também nós querermos escrever e desvendar alguns mistérios da alma ou, simplesmente, de passar para o papel aquilo que nos move ou comove. Ou, ainda, de criarmos as nossas próprias ficções, de dar-mos asas à nossa imaginação.

Por outro lado, o prazer da escrita não implica necessariamente  que sejamos todos escritores ou aspirantes a tal. Muito pelo contrário, esse prazer pode traduzir apenas uma necessidade de catarse interior, pode ser um impulso de momento, pode durar uma fase, longos anos ou uma vida inteira e ser um gesto que nos acompanha sempre. Muitas pessoas precisam de apontar o que sentem, de escrever poemas, de traduzir por palavras escritas aquilo que lhes é dado ver ou viver, e nada disto implica que queiram ser escritoras. Simplesmente sentem gosto ou necessidade de escrever e só isso é tudo. Vale por si e pela capacidade de exprimir emoções e de traduzir por palavras escritas aquilo que nem sempre se consegue dizer por palavras ditas.

Necessidade de escrever. A necessidade de escrever, aliás, é inata em nós. Em certas alturas é mesmo um impulso irreprimível. E um exemplo banal do nosso quotidiano é aquilo que escrevemos, escrevinhamos ou desenhamos enquanto temos longas conversas ao telefone. Muitos escrevem vezes sem conta a mesma palavra, rabiscam indefinidamente o mesmo desenho ou escrevem invariavelmente o seu próprio nome. Basta existir uma caneta e um bocado de papel. Numa visão mais partilhada, acontece frequentemente duas pessoas trocarem impressões e notas na toalha de papel de um café ou, numa visão mais intimista e introspectiva, há aqueles que têm sempre consigo um caderninho ou um bloco onde anotam umas palavras que ouviram ou uma frase que leram.

Uma necessidade imperiosa. Toda a arte nasce da vontade de exprimir o que nos vai na alma, o que sentimos, o que vemos, o que lemos, o que nos comove, perturba ou apaixona. A música, a pintura, o desenho, o canto, a escultura, a poesia, a representação, o o romance e o conto são expoentes máximos do que somos e daquilo que captamos do mundo que nos rodeia.

Quando nos esgotamos de uma destas formas de arte,  pode acontecer sentirmos a necessidade de explorar uma outra. José Saramago, revela-nos num tom autobiográfico em "Caligrafia e Pintura" as razões da sua passagem da pintura para a escrita,  e como o impulso para a escrita nasce da dificuldade de exprimir numa tela tudo o que vê na pessoa que está a retratar.

Uns e outros. Se para alguns a entrada no mundo da escrita é muito rápida e evidente, para outros o processo é mais demorado e trabalhado. É de invejar as pessoas que escrevem com a mesma naturalidade e o mesmo à-vontade com que respiram. Dizem elas que escrever é como um impulso, qualquer coisa inata, compulsiva. E é mesmo assim. Basta pegarem num bocado de papel, ou sentarem-se m frente a um teclado, que as palavras libertam-se como se estivessem vivas, desejosas de ganharem forma. Outros, no entanto, têm mais dificuldade em passar para o papel aquilo que sentem e que querem transmitir. Faltam-lhes as palavras e, embora a necessidade de escrita esteja latente, o processo não é o mesmo.

Alaíde Costa, frequentadora dos dois últimos cursos de Escrita Criativa no Centro em Movimento (CEM), confessa que o que sente não é tanto um impulso para a escrita, mas antes "um impulso para rabiscar". O motivo pode ser um filme, uma música, ou ainda um sonho. Pode ser pura e simplesmente gostar de histórias, de as contar, de as ler e, por conseguinte de as escrever. O que importa é que a vontade existe.

Segundo o livro Tao dos chineses, a receita para a plena realização de qualquer pessoa passa por plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. A ideia é romântica e tem tido muitos  aderentes, mas importa dizer que escrever um livro não passa por publicar uma obra. pode ser o acto de escrever ao longo da vida o seu próprio livro, mais ou menos íntimo, mais ou menos ficcionado.

Uma decisão racional... A escrita pode também ser uma opção consciente, uma decisão pensada e ponderada. Na realidade, do ponto de vista utilitário, a escrita é um meio poderosíssimo de comunicação. Um dos modos mais eficazes de nos fazermos compreender, ou mesmo uma boa solução para todos aqueles que nem sempre conseguem expressar por palavras aquilo que lhes vai na alma. A escrita acaba, assim, por ser o veículo para as declarações amorosas, como as de antigamente, os pedidos de desculpa que saem mais facilmente e as argumentações em que se articula melhor o pensamento.

...ou emocional. Como já se percebeu, a escrita também pode ser uma experiência emocional. Porque, na verdade, para muitos a necessidade de escrever vem de dentro, é muito íntima e inexplicável. São dívidas que temos para connosco, é a urgência que temos em soltar sentimentos e resolver angústias. Sofia Martins, aluna dos mesmos workshops de Escrita Criativa, diz que escrever é, também, uma forma da não morrermos, mas, acima de tudo, o primeiro objectivo é sempre para connosco próprios.

O acto da escrita é, para muitos, uma experiência intimista, quase secreta. è um veículo que nos transporta para longe da nossa realidade, que revela os nossos sonhos mais profundos e que nos transpõe para outros mundos, ajudando-nos a vencer a rotina que nos consome dia após dia.

Trabalho ou inspiração? Não podemos nunca, em qualquer circunstância, abstrair-nos da nossa realidade, daquilo que já vivemos, de quem somos, das pessoas com que nos cruzámos. Assim, toda e qualquer memória, as vivências que temos e as pessoas que encontramos  são forçosamente elementos inspiradores para quem escreve. Pessoas e gestos que nos marcaram, um olhar, uma lágrima, uma gargalhada; cheiros que nos embriagam e nos transportam para outros mundos; cores que nos sensibilizam em nos remetem para outras formas de arte, ou palavras que ressoam e ficam no ouvido. Assim, do mesmo modo que sucede com as cerejas, no caso da inspiração, quando temos uma ideia vem sempre outra atrás e, de repente, sem dar-mos por isso, temos um conjunto de ideias que até dão para escrever uma história. uma história em bruto, que precisa de ser trabalhada, mas cuja essência está lá.

Quem escreve gosta muito de o fazer. Uns numa atitude mais intima e reservada, sem pensar em editar ou publicar. Escrevem, porque gostam, porque precisam. Outros porque juntam ao facto de gostarem de escrever o desejo profundo de sermos lidos. Falamos, então,  de prazer de escrever ou do prazer de ser lido.

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