e s p e c i a l   p a i s           

Novo irmão    

Texto Maria Ana Luz , in revista XIS - Público, 19/09/2005                               

"Não quero ouvir, não gosto da mãe, a mãe é má!" eis algumas das frases mais repetidas da história. Dizer que a mãe é má é um clássico de todos os tempos. Vala a pena desmontar esta chantagem emocional.

 

Todas as mães do mundo já ouviram, pelo menos uma vez na vida esta frase acusatória. Gritada, dita em tom zangado ou murmurada entre dentes, a frase quer dizer quase tudo menos que a mãe é má.

Muitos pais e mães sentem-se mais vulneráveis quando os filhos se mostram agressivos ou fazem chantagem emocional e, mesmo sem querer, acabam por responder de forma insegura ou pouco pedagógica.

Ao contrário do que parece, o facto de o filho gritar que a mãe ou o pai são maus, é bastante saudável. Quer dizer que está a testar o amor incondicional dos pais e, ao mesmo tempo, a testar alguns limites.

Se bem que o amor incondicional por um filho não passe nunca por ceder a todo o tipo de chantagens, pedidos ou súplicas, é importante que ele seja calibrado regularmente através de respostas securizantes e tranquilizadoras. Neste pode reforçar-se o humor e... o amor.

Quando o filho diz: " a mãe e má e quando eu tiver filhos não vou ser como como a mãe!" pode sempre haver uma resposta querida, tranquila e com sentido de humor que cada um encontrará à sua medida.

Choros e birras. As crianças inventam mil e uma maneiras de exprimir os seus sentimentos e, na verdade algumas resultam mais do que outras. As lendárias birras no supermercado, as vezes em que se atiram para o chão porque não conseguem o que querem ou porque choram e amuam por tudo e por nada, são sempre desconfortáveis para todos. Difíceis de aceitar para os pais, estas atitudes revelam-se negativas pois acabam por desgastar, enervar e gerar situações que, por vezes, culminam em palmadas ou castigos reactivos.

Todas as famílias com crianças pequenas acabam por atravessar períodos mais tensos em que aparentemente as coisas não encaixam bem. É nestas alturas que, muitas vezes, os filhos acusam os pais de serem maus.

Dizem os especialistas em comportamento infantil que vale a pena perder algum tempo sempre que um filho faz este tipo de acusações. Por uma questão pedagógica mas, também, por uma questão de segurança e equilíbrio interior, dos pais e filhos.

Devolver a questão. Sempre que a mãe ou o pai respondem de forma agressiva à provocação de um filho estão a contribuir para endurecer um braço-de-ferro que, em muitos casos, pode ameaçar ou desequilibrar a relação. Ou seja, pode eternizar-se e criar uma espécie de padrão em que os filhos se habituam a chantagear e a deixá-los sem margem para resposta ou atitudes mais calorosas e construtivas. Convém abrir aqui um parêntesis para sublinhar que os filhos têm uma arte especial para ganhar quase todos os braços-de-ferro que fazem com os pais e, por isso, a estratégia mais eficaz é evitá-los sempre que puderem ser evitados.

Dizer que a mãe é má também é dizer que a mãe tem que dar mais provas de amor. Se, por um lado, isto demonstra alguma necessidade de atenção ou de mimos extra, por outro é um terreno pantanoso que convém saber contornar.

A maior parte dos pais lida mal com a verbalização negativa de sentimentos dos filhos. Ficam apreensivos, ou mesmo magoados, sempre que lhes dizem alguma coisa mais violenta ou fazem um desenho mais agressivo que os represente. Ressentem-se das expressões duras que usam.

No entanto, é importante perceber que a expressão de sentimentos, seja através dos desenhos (excelentes formas de comunicar, de projectar e de verbalizar, aliás) ou através de frases acusatórias, é essencial até para fazer pequenos e médios ajustes nas relações.

O pai também é mau. Uma criança que se sinta desconfortável na sua relação com o pai ou a mãe, que viva numa situação de pais negligentes ou seja vítima de um pai mais agressivo ou tirano pode perfeitamente exteriorizar os seus sentimentos íntimos a través do desenho. Desenhar um cão feio e agressivo a ladrar e dizer que é o pai em casa a gritar pode chocar mas é eloquente de um sentimento verdadeiro. Alguns psicólogos consideram até muito mais saudável que esta criança exprima através do desenho aquilo que sente (embora isso possa chocar os pais) do que guarde dentro de si esses sentimentos negativos.

Através dos desenhos ou das acusações as crianças interpelam os pais e pedem demonstrações de afecto.

No caso mais recorrente em que dizem que a mãe ou o pai são maus convém verificar se é uma frase muito frequente, se equivale a algum sentimento mais profundo ou se é apenas uma reacção do momento. Muitas  vezes as crianças acusam os pais de serem maus e compararam-nos com a tia, o tio, os avós ou alguém que garantem que é muito melhor que eles e, desta forma, ampliam o efeito da chantagem emocional.

Existem duas formas negativas de responder a esta interpelação: uma é dizer que os filhos também são maus, usando o mesmo tem agressivo e outra passa por ceder à chantagem para evitar conflitos. Nenhuma destas respostas neutraliza a necessidade de atenção ou de provas de amor.

Assim sendo, e de acordo com o que dizem os especialistas em comportamento infantil, o ideal é não prolongar os estados de agressividade ou ansiedade.

Dizer a um filho qualquer coisa como: "se a mãe é má e os avós é que são bons, então vai viver com os avós!" é descer ao nível das crianças e eternizar o estado de conflito interior. É uma tentação a evitar, portanto. Mais vale retomar a frase e dizer qualquer coisa do género: "está bem, tu dizes que a mãe é má mas eu estou a fazer isto porque gosto muito de ti e porque não se pode ter tudo". Claro que cada um improvisa a resposta conforme o seu estilo parental pois, nesta matéria, como em tudo na vida, não há regras nem soluções. Existem caminhos e cada um deve tentar encontrar o que é melhor e mais adequado para si e para as circunstâncias do momento.

Voltando à acusação concreta e à resposta que se dá, os especialistas aconselham a usar a quilo a que chamam a "táctica do endredon", ou seja tentando dobrar e desdobrar a questão de uma forma suave, doce e calorosa. Tudo a bem da saúde mental dos filhos e do equilíbrio da família, claro.

 

início da página