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                 Gostar de Matemática: Uma equação impossível?

 

De entre todas as disciplinas 'chatas' dos programas escolares, este é o monstro de sete cabeças dos nossos filhos. É preciso mostrar-lhe que a matemática é útil, necessária... e que pode até ser divertida.

 

Imagine que está numa festa cheia de gente. Um estranho pergunta a outro o que faz na vida. "Sou professor de matemática", responde. Ninguém estranhará , se a contra-resposta for: "Ah, sempre odiei matemática! Nunca tive boas notas e mal sei resolver uma equação." Mas se, em vez de um professor de matemática, a cena se passar com um português ou de literatura, os restantes convivas vão ofender-se se ouvirem: "Odeio livros, sempre tive más notas a português e mal consigo ler um jornal." Este é um cenário proposto num artigo intitulado 'The trouble with maths' (O problema com a matemática), publicado no conceituado jornal inglês 'The Guardian', da autoria do jornalista Jonh Grace. Este lança a polémica: se ser iletrado é um estigma social, porque é que a inaptidão para a matemática é tão bem compreendida?

Helena Martins, da Associação de professores de Matemática (APM), pode ser uma docente em início de carreira, mas já percebeu que a falta de gosto pela disciplina é cronicamente incentivada pela sociedade. "Não gostar de matemática é algo quase incentivado socialmente. Os pais dizem aos filhos, perante as más notas à disciplina: 'Não me admira que ele não seja bom a matemática. Eu também não era."

 

Uma ciência elitista?

"Dou aulas há mais de 20 anos e nunca tive um aluno que fosse incapaz para a matemática. Já tive muitos que não ligavam à disciplina, mas nunca gente incapaz", recorda Fernando Nunes, docente da disciplina e presidente da APM. "Alguns orgãos de comunicação social até insinuam que os portugueses não são muito dotados nessa área. Não há nenhum dado científico que mostre isso! E a crise do ensino da matemática é planetária e não se passa só em Portugal!" mesmo a média dos exames nacionais do 12º ano, que ronda os 9,3 valores, não é largamente ultrapassada pelos nossos vizinhos europeus, afirma o presidente da APM.

Mas será verdade que os miúdos não gostam mesmo de matemática? Fernando Nunes adverte que, primeiro, há que definir 'miúdos'. "No pré-escolar e no primeiro ciclo não há grande rejeição e as crianças não têm problemas em com conteúdos matemáticos. Ela surge no 2º Ciclo (5º e 6º ano) e vai-se agravando nos anos seguintes. Temos mais notícias do ensino secundário, por causa dos exames nacionais. Talvez por isso as pessoas estejam convencidas de que a maior parte dos jovens não gosta de matemática.2

E quais as razões para esta antipatia?

"A matemática é apresentada de uma forma dura, como um instrumento de exclusão e selecção", diz Fernando Nunes. Uma disciplina que os alunos vêem como 'elitista', numa sociedade em que só os muitos inteligentes sobrevivem academicamente.

Outra das razões é a necessidade que os professores têm em apresentar esta ciência pelo ponto de vista da abstracção. O problema é que muitos alunos ainda precisam de exemplos concretos, de visualizar como é que as coisas se fazem, porque o raciocínio abstracto está ainda em formação. E os jovens têm dificuldade em perceber que, aquela disciplina chata que parece que nunca na vida lhes vai servir para alguma coisa, pode ser muito útil dentro de dois ou três anos. "Como professores, devemos preocupar-nos em apresentá-la como algo que possa ter significado na vida quotidiana dos alunos. Temos também que lhe dar uma componente de jogo, que lhes dê prazer." E o presidente da APM frisa ainda que, em vez dos professores privilegiarem a memorização de conceitos, deviam insistir em novas metodologias e estratégias de ensino.

Ensinar, divertindo

O jogo do 24 é um exemplo de como a matemática pode entrar no quotidiano dos mais jovens de uma forma lúdica. Neste jogo são dados cartões com quatro números aos participantes. Os jovens têm de usar esses números e conjugá-los em operações de cálculo mais ou menos simples (como a soma, a subtracção, divisão e multiplicação) ou mais complicadas para os mais velhos (potenciação, radicação). Os sinais das operações não são mencionados nos cartões. É uma questão de criatividade e pensamento rápido. Os cálculos são feitos 'de cabeça', expressos em voz alta, e são apropriados aos conhecimentos e à faixa etária dos participantes. Ganha quem fizer as operações mais rapidamente.

Existem já campeonatos distritais e nacionais inter-escolas, sempre com uma enorme adesão. A competição e o factor jogo motiva-os a tornarem-se ases do cálculo e, como consequência directa, a interessarem-se mais pela disciplina.

Outra estratégia de ensino fora dos muros escolares é a dos conteúdos multimédia dedicados à matemática. Sob a forma de CD-ROM, são feitos a pensar em faixas etárias específicas. É dado um especial ênfase à fase pré-escolar e ao primeiro ciclo. Mas também existem CD-ROM's para quem começa agora o ensino secundário. Os conteúdos são apresentados com recurso ao jogo. Como os resultados matemáticos são apresentados no fim de cada exercício, as crianças vão aprendendo por um processo de tentativa e erro, sem estarem constantemente a ouvir que 'não é assim', de um professor ou dos pais.

É importante aprender, porque...

Esta disciplina pode ser uma das melhores amigas do seu filho no que respeita ao desenvolvimento intelectual.

Ela é a principal ferramenta de desenvolvimento do pensamento abstracto e do raciocínio rápido.

Treina-nos para a resolução rápida de problemas quotidianos.

Ajuda a desenvolver a comunicação, através da aquisição de termos de linguagem matemática. A maior parte dos cursos universitários tem esta disciplina no seu currículo. Mesmo os cursos de Ciências Sociais, como sociologia ou Ciências da Comunicação, têm quase sempre uma cadeira de Matemática e Estatística. O seu filho vai necessitar destas bases para chegar à universidade com bons conhecimentos.

 

Algumas ajudas para apresentar e explicar a matemática ao seu filho:

Kit Educativo de Matemática - um CD-ROM, dois livros de actividades e um guia de explorações; crianças entre os 4 e os 8 anos. Porto Editora

Eu Adoro Matemática - CD-rOM, indicado para a 3ª e 4ª classes (crianças entre os 7 e os 11 anos). Porto Editora

O sapo ajuda... Matemática - CD-ROM, na versão 5º e 6º anos. Texto Editora

Saber mais Matemática, 11º ano - CD-ROM. Porto Editora

Activa - Edição Especial Filhos, nº 4 2003, pág. 80,81

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