e s p e c i a l   p a i s           
Privação do sono afecta equilíbrio psíquico, cognitivo e corporal
Dormir pouco é "hipotecar o futuro"
Os  portugueses andam a dormir cada vez menos. Adultos e crianças negligenciam horas de sono, talvez sem saber que esta subtacção pode ter resultados dramáticos. dormir tornou-se um luxo.

Cadernos de Saúde Pública . Abril 2004 . por Teresa Martins

O ritmo quase sempre alucinante do quotidiano está a roubar horas de sono aos portugueses. Com um prejuízo incalculável para a qualidade de vida. dormir menos, ao contrário do que se possa pensar, não significa aproveitar mais e melhor os dias, mas sim ter um raciocínio mais lento e baço, sofrer alterações de humor e irratibilidade, estar mais vulnerável a infecções e pode ver-se envolvido num acidente de viação grave e, à partida, inexplicável. estas são apenas algumas das possíveis consequências da privação do sono. dormir oito (revigorantes) horas tornou-se um luxo para muitos. e o mais grave é que esta realidade não se aplica apenas aos adultos. Também as crianças e os adolescentes estão a dormir, cada vez menos.

"O sono é importante para o equilíbrio psíquico, cognitivo e corporal e isto é particularmente relevante para as crianças por estarem em fase de crescimento", sublinha Teresa Paiva, neurologista no hospital de Santa Maria, em Lisboa, e especialista em fisiologia do sono.

As crianças com défices de sono têm um risco acrescido de doenças, são mais propensas  a problemas de irritabilidade e até de violência e, além disso, têm menos capacidade a nível do raciocínio abstrato. Ou seja, têm mais dificuldades na aprendizagem da matemática e o rendimento escolar pode ficar comprometido.

"É frequente os adolescentes dormirem menos de sete horas por dia e isto é muito preocupante", alerta a especialista, referindo que, entre outros factores, as crianças "têm um número excessivo de actividades escolares".

A "regra" das oito horas de sono dos adultos não se pode aplicar aos mais novos. "É completamente insuficiente". Em média, um adolescente de verá dormir cerca de nove horas e uma criança dez ou onze horas "se lhe apetecer". As crianças mais pequenas "devem dormir ainda mais". Até porque é durante o sono que crescem, já que a "hormona de crescimento é produzida exclusivamente naquele período". Além disso, necessitam de um sono de qualidade, de "paz e sossego", o que nem sempre é privilegiado. Basta entrar num centro comercial à noite e ver "os miúdos a dormir nas cadeirinhas..."

Sociedade "alvoraçada" - Negligenciar as horas de sono é, nas palavras de Teresa Paiva, "hipotecar o futuro". E, no caso dos adultos, hipotecar uma "velhice saudável".

"Falta tranquilidade em Portugal, estamos a viver uma espécie de novo fado, um desassossego global e temos uma sociedade completamente alvoraçada", considera. Sem querer fazer "o elogio da preguiça" a especialista apela ao bom senso e defende que, embora o sono não traga a solução para os nossos problemas, "as pessoas podem encontrar soluções se tiverem uma atitude mais tranquila, mais ponderada face à vida".

Aliás a revista "Nature" publicou recentemente um artigo sobre a importância do sono na capacidade de resolução de problemas complexos. Investigadores da Luebeck University, na Alemanha, juntaram 106 voluntários e verificaram que o grupo que dormia 8 horas tinha uma capacidade de resolução de problemas superior, em mais de 60%, em relação ao grupo privado do sono. esta será a prova de que "quem dorme bem, pensa melhor".

Basta, por exemplo, uma noite em branco para que surjam lapsos e dificuldades de compreensão. As frases ditas na negativa são, nestas condições, mais difíceis de perceber do que na afirmativa, o que poderá dar lugar a confusões e alguns equívocos. Além disso, "há marcadas alterações de humor e , se a privação for crónica, pode haver depressão".

O sono parece ser muito importante também para "restabelecer os mecanismos de equilíbrio do corpo, para baixar a temperatura do cérebro e para reequilibrar processos imunológicos". Efectivamente, poucas horas de sono podem acarretar um maior risco de infecções e, em casos prolongados, até de diabetes e obesidade.

Esta realidade aplica-se com maior relevo, nos trabalhadores que fazem turnos. Em Portugal, 30% da população activa trabalha por turnos, alguns dos quais completamente desajustados com o nosso relógio biológico. As consequências não poderiam ser mais vastas: "maior risco de insónia, de consumo de álcool e de medicamentos para dormir, de doenças, de divórcio e de acidentes de viação..." Embora existam regras para que o trabalho por turnos não seja tão prejudicial, Ninguém as conhece e, claro, ninguém as cumpre". uma dessas regras dita que os turnos não devem começar antes das sete da manhã.

Em média, revela Teresa Paiva, quem trabalha por turnos dorme menos uma hora e meia por dia. A agravar esta subtracção está o facto de que o sono durante o dia não é tão reparador como o nocturno. Porque "estamos sincronizados pelo sol e quando dormimos durante o dia estamos fora de fase". Estar sincronizado pelo sol significa que "temos uma curva bifásica com dois mínimos de temperatura ao longo do dia, um de madrugada, por volta das 4 da manhã, e outro a seguir ao almoço, no período da sesta, durante os quais a pessoa tem propensão para adormecer".

Estes dois picos estão relacionados com um dos aspectos mais dramáticos da privação do sono: os acidentes rodoviários.

Acidentes inexplicáveis - "Mais de 20% dos condutores sem doenças do sono afirmaram já ter adormecido ao volante", nota a especialista. os episódios de sonolência ao volante não são mais do que a primeira causa de acidentes mortais, "porque a pessoa pura e simplesmente não se defende". Na maior parte dos casos, o acidente é inexplicável e não existem sinais de manobras defensivas. "São quase sempre extremamente graves  e muitas vezes com consequências fatais".

Os picos dos acidentes dão-se durante a madrugada, por volta das 4 da manhã, o que coincide com a hora específica em que temos uma redução espontânea da vigília, associada à diminuição da temperatura do cérebro. Nessa altura, "temos menos capacidade de decisão estratégica e cometemos mais erros", logo a probalidade de acidentes é maior. Ainda assim, a sonolência ao volante raramente é motivo para que se faça uma pausa na condução.

Mudar os hábitos que nos têm sido impostos pela velocidade a que se vive hoje  o quotidiano e encontrar mais tempo para dormir pode ser, então, um atalho para uma sociedade mais tranquila e produtiva. Porque "dormir bem é viver melhor".

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